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Wednesday, October 28, 2009

A conquista de um sonho do Brasil a Portugal

Edilson Sousa Araújo é o nome do camisola 5 do Freixieiro que todos conhecem por Nené.

Acarinhado pelos apoiantes da equipa de Matosinhos, Nené entra em campo como se desde sempre fizesse parte desta instituição; no entanto, o trajecto do jogador já conta com outras passagens. Tudo começou aos seis anos quando decidiu ingressar pela aventura do futsal. Dividido entre o sonho do futsal e do futebol integra uma equipa de futebol e concilia ambas as modalidades enquanto investe na formação pessoal. Em 2003, dá o primeiro salto na carreira ao rumar para São Paulo. O futebol tornara-se numa ambição de outrora, passando o futsal a inteirar a sua vida. Após esta experiência, acaba por sair do país e até do continente. O destino que se seguia era a Bélgica, ainda que apenas pelo período de quatro meses. Eis que surge a oportunidade de vir para Portugal e Nené não hesita em dirigir-se para o nosso país, apesar de ter tido uma proposta para regressar ao Brasil. Hoje, é um dos melhores marcadores do futsal português, é um jogador bom, como se define, e sente-se feliz e concretizado pelo que já alcançou. A selecção é agora a próxima etapa que pretende alcançar. A defesa das cores nacionais é um objectivo pretendido por aquele que todos no futsal reconhecem, afinal “é o Nené, é o Nené”, como ecoa a claque do Freixieiro a cada jornada.


Anabela (A) – Antes de mais queremos saber a que se deve o nome Nené. Há alguma razão que explique?

Nené (N) – Nené é só alcunha. Já vem desde bebé mesmo, porque, no Brasil, Nené é bebé.

A – Então decidiste adoptar o nome pelo qual te conheciam.

N – O nome já tinha surgido e, portanto, não havia como mudar. Todos me conheciam por Nené, poucos eram aqueles que me conheciam pelo nome mesmo, então, adoptei o apelido.



A – Como é tudo começou no futsal? Que clubes representaste desde a tua formação no Brasil?

N – Comecei no futsal aos 6 anos, nas escolinhas. Desde essa altura, sempre conciliei os estudos com o futsal. Aos 8/9 anos, passei a jogar também nas escolinhas de futebol 11 e pratiquei ambas as modalidades até à idade de juvenil, momento em que tive de escolher. Preferi o futsal, uma vez que, aos 16/17 anos, já fazia parte da equipa de seniores de Rio Verde. Já ganhava algum dinheiro e decidi optar pelo futsal. Fiquei no Rio Verde até aos 19/20 anos e, em 2003, saí da minha cidade, pela primeira vez. Fui para o interior de São Paulo (Santa Fé do Sul). Depois tive uma passagem de meia época pelo Charleroi, na Bélgica. Entretanto, houve o interesse de uma equipa, no Paraná, no Brasil, mas foi quando apareceu a oportunidade no Instituto. Vim para Portugal, fiquei três anos no Instituto e, posteriormente, despontou a oportunidade no Freixieiro.



A – No Instituto (2004-2007), ocorreram lances bastante disputados em campo. Temos o caso do jogo com o Freixieiro, cujo resultado final foi 2-2. Porém, este encontro foi considerado «polémico», por considerarem que o golo foi marcado em situação irregular. Lembras-te desse jogo?

N – Desse jogo até me lembro bem. Estava a jogar pelo Instituto e até fui expulso. Estive a acompanhar o lance de fora e, realmente, já tinha passado o tempo e acho que a bola foi com o braço. São coisas que acontecem. São erros dos árbitros, umas vezes a favor outras vezes contra.

A – Encontros jogados também até ao final são aqueles que se realizam com o Sporting e com o Benfica. Como é que encaras esses jogos frente aos clubes que, juntamente com o Freixieiro, são grandes clubes nacionais?

N – Não adianta fugir. Os jogos contra o Sporting e o Benfica são sempre diferentes. O Belenenses, nos últimos três anos, tem feito boas campanhas e, nos últimos dois anos, chegou à final. A Fundação também se junta ao lote. São sempre jogos em que temos de estar concentrados até ao fim. O futsal é assim e, às vezes, em dois/três segundos decide-se uma partida. São jogos sempre muito complicados, renhidos e a concentração tem de estar em alta.


Nené, esta época, frente ao Benfica

As grandes penalidades da época passadaFestejo de um golo frente ao Sporting

A subida ao campo na hora do jogo despoleta sempre a adrenalina em Nené. Como o próprio afirma “a adrenalina é normal. Quem disser que não a sente está a mentir. É normal antes dos jogos, principalmente antes dos que são mais difíceis, mais decisivos…é normal sentir o friozinho na barriga”. Na altura de entrar no palco de todas as emoções, o jogador do Freixieiro assume que adopta alguns rituais que não sofrem grandes modificações com o passar do tempo: “tenho rituais simples. Coloco a caneleira direita primeiro, entro em campo sempre com o pé direito, faço sempre o sinal da cruz e benzo-me antes de entrar e na hora de sair para agradecer”, revela o número 5.

Nené joga na posição de ala, embora, “às vezes, quando o Ivan ou o Dani não estão em campo, jogo em fixo também”. Já em campo, o atleta confessa ser “um jogador tacticamente bom e com muita vontade. Entrego-me completamente quando estou dentro de campo. Sou bom no um-para-um, gosto de ter a bola, gosto de chamar a responsabilidade para mim mesmo. Fui sempre assim desde jovem e agora não é diferente. Não sou mau na marcação. Às vezes, perco, erro como todos, mas é assim que me descrevo enquanto jogador”. E, ainda que assuma por entre um sorriso que é complicado ser ele próprio a falar dele, fora das quatro linhas, descreve-se como “um rapaz tranquilo. Não sou muito de sair, sou mais caseiro. Sou um pouco tímido, é o meu jeito de ser. É do signo escorpião” e chega a utilizar uma expressão brasileira quando diz: “falo menos e acho que quem fala menos «saca» tudo”.


A – Contas já com alguns anos em terreno luso, do que é que sentes mais falta do Brasil?

N – Da família e dos amigos. Penso que a rotina, a cultura do país é muito diferente e o clima também. Aqui faz muito frio e, às vezes, nem dá vontade de fazer muita coisa e torna-se complicado.

A – Quem consideravas uma referência no futsal?

N – Sempre tive grandes referências. O futsal brasileiro é, sem dúvida, o melhor do mundo. Tive grandes referências: o Falcão e o Tobias que estava no auge quando eu estava a começar.

A – Já que estamos a falar em Portugal e no Brasil, é impossível não falar das selecções. Esperas vir a conseguir a naturalização e ingressar na selecção nacional portuguesa ou reside em ti a esperança de seres convocado pela selecção do Brasil?

N – Acho que, para a selecção brasileira, é um pouco complicado. Ela tem muitos jogadores bons e nós também ficamos um pouco “escondidos”. No meu caso, saí do Brasil muito cedo, muito jovem e sou pouco conhecido no Brasil inteiro. A selecção portuguesa, como é lógico, passa pela cabeça sempre. Ainda não me naturalizei, mas estou aqui há um tempinho e, se aparecer a oportunidade, darei um passo que falta na minha carreira.


Dois brasileiros juntos pelo Freixieiro

A – Há alguma época que destaques como aquela que te traz mais recordações, que fica para a história da tua carreira?

N – Consigo destacar duas grandes épocas. Uma no Brasil, em 2003, quando estava no Rio Verde. Joguei na Liga e marquei 16 golos. Até à primeira fase estive na disputa para o melhor marcador: o Falcão tinha 19 e eu tinha 13/14. A minha equipa acabou por não se classificar, não passou da primeira fase, mas eu fiz uma grande Liga e foi aí que começaram a surgir novas oportunidades. Por cá, a minha melhor época foi a época passada. A minha primeira época no Freixieiro também foi boa, todavia, foi uma época de adaptação. A época passada foi aquela em que joguei mais minutos, marquei mais golos (25), fiquei entre os três melhores marcadores. Foi muito bom.


Os primeiros aquecimentos pelo Freixieiro


O afastamento do Sporting na época passada


A – És um jogador de grandes golos e ainda este fim-de-semana voltaste a marcar. O que é que te passa pela cabeça na hora em que marcas?

N – O golo é o momento maior. Sentimos uma maior emoção, dependendo do jogo que for. Se é um jogo mais decisivo é muito mais emocionante. Todos os golos são bons, são emocionantes e é onde «tiramos para fora»: onde insultamos, onde agradecemos…O momento vai ditar o que vamos fazer.

A – Qual o golo que te fica da memória?

N – Um golo em particular não tenho. No entanto, um que foi muito emocionante foi o da época passada frente ao Sporting. O golo que fez com que conseguíssemos eliminar o Sporting, nos play-offs, foi muito emocionante para mim.

A – E ainda te recordas do primeiro golo que marcaste, mesmo em miúdo?

N – Não. (risos) Para falar a verdade, desse não me recordo mesmo.

Um grande golo frente ao Olivais


A – Quais as maiores evoluções que notas em ti desde que chegaste a Portugal?

N – Penso que a evolução tem a ver com a experiência que fui adquirindo ao longo dos anos. Não sou muito velho, mas comecei cedo. Como disse anteriormente, com 16/17 anos já estava numa equipa sénior e, no Brasil, aprende-se muito. Não só com o treinador como também com os companheiros de equipa mais experientes. Considero-me, hoje, um jogador com muita experiência: sei entrar em campo, sei para onde correr, sei fazer uma cobertura. Não obstante, consigo ler o jogo de uma maneira boa, de forma a saber o que está a acontecer e pensar no que devo fazer. Foi nisso que evoluí mais.

A – E consegues fazer um balanço do futsal nacional, neste momento?

N – O futsal português melhorou muito, desde que cheguei. Quando cheguei senti muito a diferença. Não achava que o nível era fraco, mas, em relação ao Brasil, considerava um nível abaixo da média. Ainda hoje penso que a Liga brasileira é mais disputada. No Brasil, é diferente. Os clubes são todos profissionais, treinam muito (de manhã à tarde)… Aqui, infelizmente, não é assim, porém, penso que evoluiu muito. O campeonato está muito disputado e qualquer equipa pode roubar pontos a outra. Não está um campeonato de quatro equipas, como no ano em que cheguei, e isso é bom. É isso que faz o futsal evoluir e a tendência é evoluir cada vez mais.

Para o futuro, Nené não pensa em grandes feitos até porque já se considera “um bocado realizado”. O sonho de se tornar jogador foi concretizado e agora “falta pouca coisa”, assevera. “Quando era miúdo sempre sonhei ser jogador de futebol e, por isso, sou um jogador realizado. Só quero continuar a fazer as coisas bem, aqui no Freixieiro, e, quem sabe, um dia chegar a uma das selecções. É isso que falta na minha carreira”, manifesta. Esse é o principal objectivo, de momento, o resto será para onde o futsal o conseguir levar: “Tenho a minha carreira, consigo viver bem financeiramente. Consigo ajudar a minha família no Brasil, esse era o meu desejo. Quando me tornei jogador de futebol sempre me apoiaram, sempre me ajudaram e agora tento retribuir isso. Estou feliz assim. Falta a selecção para fechar a minha carreira com chave de ouro”.


Anabela da Silva Maganinho

Monday, June 1, 2009

A luta de três pelo sonho além fronteiras

Diego (piano), Marcos (voz e guitarra), Felipe (bateria)


Chapa é o nome da banda que integra três irmãos de Rio Grande do Sul. Encetaram no mundo da música brasileira no ano de 1993 ao se juntarem para participar num concurso organizado pela escola. Ainda muito novos, Felipe, Diego e Marcos ganharam o concurso com um original e esse foi apenas o mote para avançarem numa carreira. Divulgar a música por entre bares e outros lugares do estado natal foi o primeiro passo até que avançaram com uma digressão pela Argentina e pelo Uruguai. Em 2006, decidiram navegar o oceano e fazer chegar o nome Chapa à Europa. Portugal e Espanha foram os países que os acolheram, com destaque para Porto e Lisboa e Barcelona, Madrid e Valência.
No ano transacto, os irmãos Fagundes regressaram a terras lusas para promover o álbum “Outro Dia” e é no sentido de dar continuidade a esse intuito que os Chapa estão em Portugal neste momento. As Fnacs do Norte do país foram as primeiras a recebê-los neste ano de 2009, seguindo-se as de Lisboa na semana que acabou de terminar.
Com o novo álbum já na forja, lançamento previsto para Março, os Chapa prometem ficar por Portugal até Setembro com muitas surpresas por revelar.

Anabela (A) – Como não poderia deixar de ser vamos começar pelo início. Vocês são três irmãos de Rio Grande do Sul, mas como é que tudo começou? Em 1993, deram o salto para o mundo da música e o que é que se passou antes disso?
Diego (D) –
O ano de 1993 foi o início mesmo. Foi a primeira vez que tocamos juntos. Eu já tocava piano há cerca de dois/três anos, o Marcos, com apenas oito anos, tocava violão e o Filipe começou a tocar naquele ano a bateria. Então, na mesma casa, começamos a tocar juntos. Fizemos a banda para participar num festival da nossa escola. Compusemos a música, participamos no festival e ganhamos.

A – As músicas surgiram a partir daí ou já contavam com algumas composições?
Diego (D) –
Na verdade fizemos a primeira música aquando do concurso. Para participarmos no concurso a exigência era uma música original e foi aí que fizemos a nossa primeira música. Éramos muito novos. Eu tinha 10/11 anos, o Filipe tinha 12/13 e o Marcos 8. Depois começamos a tocar em bares, em casas de concertos e decidimos continuar.
Marcos (M) – A gravação do disco foi 1997. Foi essa a primeira vez que entramos num estúdio e começamos a compor mesmo.

A – Podemos dizer que o gosto pela música despoletou em vocês desde sempre?
M –
Sim. Com cinco anos, a minha brincadeira era fazer uma bateria com latas de tinta.

A – Vocês são três irmãos que formaram uma banda, mas já contam com antecedentes na família?
M –
Na verdade, temos um tio que toca violão.
D – Mas não é profissional.
M – Na nossa família os nossos pais são médicos. Não têm qualquer ligação com música, mas sempre gostaram.

A – Vocês são uma banda pop/rock, as vossas referências musicais assentam nessa linha?
M –
Ao longo da nossa carreira já tivemos influências diferentes. Em “Outro Dia”, as nossas influências assentaram muito no rock dos anos 70/80. No Brasil, Rita Lee, Paralamas do Sucesso…ao nível internacional Beatles, Beach Boys, Aerosmith, Silverchair...

A – Em que medida é que essas bandas influenciam na vossa composição?
D –
Eu acho que tudo. Como o Marcos falou temos bandas dos anos 60 e 70 que nos influenciam, mas também bandas mais actuais em que conseguimos ver a influência das mesmas bandas. Todos acabam por se influenciar. Tivemos já várias fases, no que diz respeito a influências. Houve uma altura em que éramos influenciados pelo reggae: Bob Marley, Big Mountain, entre outros e agora estamos a gravar um álbum novo, em inglês, e temos sentido a influência de coisas bem diferentes. Para além das influências dos clássicos, coisas mais modernas, electrónicas…
Filipe (F) – Alternativas e experimentais também.
D – Acho que até o nosso novo trabalho tem uma onda mais alternativa… É difícil rotular o que fazemos.

A – Cabe-vos a composição das músicas, em que é que vocês se inspiram?
M –
Em várias coisas. Sentimentos…
D – O “Outro Dia” foi gravado em 2006, no Brasil, e agora após uns anos consigo ver as composições e as letras e ver que elas tratam aquilo que vivíamos na época. Morávamos no Rio de Janeiro e as letras e a música reportam-nos a isso.
F – Dessa forma, considero que o nosso novo álbum vai ter muita coisa do que estamos a viver agora.
D – Estamos a compor e a produzir várias músicas e isso está a reflectir-se no álbum. Penso que muita coisa daqui, do que nós temos vivido em Portugal se está a reflectir.

A – O que é que surge primeiro a melodia ou a lírica?
D –
Isso não tem muita regra. No nosso trabalho novo, as ideias têm surgido do Marcos. Com as melodias concebidas depois sempre nos reunimos para produzir e para definir as estruturas das coisas.
M – Geralmente a letra sempre fica para último, mas também já tivemos muitas músicas que começaram pela letra, por uma frase. A música “Lágrima” fizemos toda a letra, depois musicamo-la e voltamos a fazer mais um pouco da letra. Não há regra.

A – Através das músicas, há uma mensagem a passar para o público?
D –
Não temos uma ideia básica do que queremos passar. Em cada música queremos passar uma ideia diferente. Procuramos fazer coisas que gostamos, com as quais nos sentimos bem a tocar. Fazemos as músicas, gravamos e depois vamos estar alguns anos a tocá-las, então, tem que ser algo que gostemos. No “Outro dia” conseguimos isso e ainda mais no trabalho novo. Temos gostado. Hoje [quinta-feira], no concerto [no Rock in Chiado], vamos tocar as três músicas do álbum novo para ver a reacção do público em relação às três músicas.

A – Nos vossos concertos, em Portugal e até mesmo no Brasil, há uma faixa etária que consigam identificar?
M –
Acho que há uma faixa etária, mais ou menos, da nossa idade entre os 20/30 anos. D – Encontramos também pessoas mais velhas e mais novas, mas, em geral, é nessa faixa dos 20/30.

A – Na vossa opinião, quais as características que um artista deve reunir para ser bem sucedido?
D –
A característica principal é não ter regra. Não procurar ser nada. Simplesmente ser original e natural.
M – Não buscar «lá na frente» o resultado que a música vai dar. Importante é fazer pela música, sem pensar. Depois que fazemos, aí sim tentamos levar para o máximo de pessoas.
D – Por mais que tenhamos influências de outras bandas sempre procuramos a nossa maneira de fazer, de tocar, compor e falar. Penso que isso é o principal. É difícil dar uma fórmula, porém, acho que é isso: cada um tentar achar o seu caminho.

A – Recordam-se ainda da primeira vez que ouviram pela primeira vez a vossa música a tocar na rádio?
M –
Eu estava a chegar em casa. Foi em 1998 que ouvi o primeiro single, do nosso primeiro disco, “Quero Você”.
A – O que é que se sente?
M – Sentimos que nos estamos a tornar pop stars. (risos)

A – E em Portugal, algo bem mais recente visto que a vossa estreia em Portugal foi em 2006, como se sentiram quando a vossa música passou nas rádios nacionais?
M –
Foi bom. Chegamos a Portugal um pouco antes do Festival da Best Rock. Não sabíamos como estava a ser, porque estávamos no Brasil. Chegamos, estivemos na Rádio, demos uma entrevista e deu para sentir como as coisas estavam a decorrer. No Festival foi muito bom vermos as pessoas a cantarem as nossas músicas.

A – Nestes três anos o que é que destacam do que fizeram por cá?
M –
Em 2006, a primeira vez que cá viemos, fizemos uma tour por Portugal e Espanha e essa viagem foi muito boa, porque ficamos dois meses aqui. Demos uma volta por Portugal e Espanha e foi muito bom conhecermos, praticamente, toda a Península Ibérica.
D – Demos um concerto em Espanha, em Valência, e foi aí que tivemos a ideia de tocar em inglês. Estávamos a tocar num lugar, num dia em que tinha chegado uma excursão da Alemanha, e todos foram ao concerto. No final, vieram ter connosco e disseram-nos que tinham gostado da nossa música, todavia, que não tinham compreendido nada. Ficamos a pensar que tínhamos de começar a cantar em inglês para poder passar tudo e, por isso, estamos a fazer este novo álbum em inglês.

A – E com isso podem alargar a vossa música para além do vosso país e dos países latinos, para outros países da Europa…
D –
Sim. Para a Inglaterra e outros países.

A – No ano passado investiram muito na promoção, em Portugal. Este ano continuam a apostar nela?
D –
Estamos a fazer uma tour com concertos de forma a promover o álbum “Outro Dia”. Paralelamente, estamos a preparar o novo álbum que vamos começar a trabalhar a partir do ano que vem. Portanto, estamos a fazer a tour do disco, concertos com base nas músicas do disco às quais juntamos duas ou três músicas novas. A – Qual é a grande diferença que denotam entre o público brasileiro e o público português?
D –
A diferença do público é muito relacionada com o modo como funciona o mercado da música. No Brasil, a música popular é uma música mais do Norte. No nosso estado, as pessoas identificam-se mais com uma música com mais influência de rock, não tem tanto a música popular.
M – É uma música mais fria do que o resto do Brasil.
F – É um público mais parecido com a Europa e com Portugal.

A – Como é que vocês vêm o panorama da música portuguesa?
D –
Acho que, em qualquer lugar, o mercado da música está a passar uma crise pela questão da pirataria. No Brasil ainda mais… A Iinternet, para bandas que estão a começar, é bom. Existem milhares de maneiras de divulgarem a música. Para as editoras não é uma coisa tão boa, porque perdem nas vendas. Acho que o que é bom nisso é que estão mais bandas a aparecer, mais bandas a compor. Hoje existem mais bandas boas, mais bandas más, mais tudo e isso é bom.
M – Todos conseguem ser ouvidos pelo menos um pouco.

A – O que é que vocês estão a preparar aqui em Portugal?
D –
Vamos fazer mais alguns concertos aqui. Agora, em Junho, vamos para os Açores. Agosto e Setembro vamos ter mais alguns concertos aqui e, no final deste ano ainda, vamos lançar o single. Ainda não temos nada oficial do que vai acontecer, porquanto estamos a ver tudo o que diz respeito ao novo álbum.



A – Para quem ainda não conhece o vosso álbum. O que é que têm a dizer acerca dele?
D –
Um álbum muito bom.
M – Na verdade, foi o primeiro trabalho mesmo verdadeiro, para mim. Não tivemos influência de ninguém de fora. Fizemos todas as músicas, gravamos e produzimos e, por isso, é uma coisa que mostra bem o que somos. As letras reflectem uma fase bem forte das nossas vidas e daí o nome “Outro dia”. Tudo mudou: a música, começamos a ficar mais velhos…

A – E a vossa vida no Brasil como está agora?
M –
Esse é o lado pior. Ficar longe da família, da namorada…
D – Mas também acostumamo-nos a isso. Já há alguns anos que estamos sempre a viajar. Ficamos uns meses e saímos para viajar e tocar.
F – Em Portugal, já fizemos vários amigos. Isso faz com que nos sintamos bem, nos sintamos em casa.

Há mais de uma década e meia que traçam o percurso pelo mundo da música. Sem ambicionarem demais preferem dar pequenos passos, desde que sejam à sua maneira, de forma a que consigam fazer chegar o nome e a música ao maior número de pessoas.
Com vários concertos já no repertório, confessam em sintonia que gostaria de dividir o palco com Paul McCartney. No entanto, Diego revela “uma pessoa com quem seria bom actuar”: “um cantor/compositor argentino chamado Tito Paes. Gostaria muito de cantar com ele e dividir o palco com ele. Ele é uma influência nas músicas e nas letras que compomos. Seria muito bom”.
Já com um disco editado no Brasil, Portugal começa a fazer cada vez mais parte dos planos de edição dos Chapa. “Até agora está a surgir a ideia. O nosso manager aqui está a fazer contactos com o Brasil para relançar o “Outro Dia”, adianta Marcos. “Queremos lançar um novo álbum. A princípio na Inglaterra, porque o álbum é em inglês, mas também em Portugal e no Brasil. Uma coisa simultânea, não sei como”, anuncia o pianista Diego com um sorriso e continua “começar a divulgar e dividir os meios para tocar em todos os lugares. Este ano, estamos muito a pensar como o vamos fazer”.
No que concerne a objectivos e a sonhos, podemos dizer que «os pés bem assentes na terra» são uma máxima para estes irmãos. “Eu não consigo pensar muito na frente. O que eu quero é o que estamos a viver agora. Penso no álbum novo, em realizá-lo, que fique da maneira que eu espero e começar a divulgá-lo. Tocar na Inglaterra, em Portugal, no Brasil… acho que isso é o que eu quero que se realize no momento e depois vemos”, assevera Diego.

Felipe acaba por ir de encontro às ideias do irmão e diz que o que pretendem “é tentar mostrar ao maior número de gente a nossa música e quem nós somos. Fazermos um disco excepcional, com certeza que vai ser. E, no próximo ano, cantar por novos países, novas culturas”.

Marcos, apesar de, inicialmente, brincar com o facto de ter sido deixado para último, acaba por falar muito a sério quando afirma que importante é aproveitar o momento: “o momento que estamos a viver aqui é novo para nós. Está a ser muito bom e espero que no próximo ano conheçamos ainda mais pessoas diferentes, culturas diferentes, toquemos para mais gente e tentar ampliar. Estou muito satisfeito”.

A satisfação é, efectivamente, um conceito que acerca esta banda que se contenta com o que tem arrecadado, mas nem por isso estagna em relação a projectos. Querem manter o dinamismo e mostrar a ritmo que transportam sempre conduzidos pelo sonho real da música que não pára com "o tempo".

Anabela da Silva Maganinho

Tuesday, April 14, 2009

O marcador de sonhos

Fernando Cardinal é o jogador que se tem destacado ao longo das duas últimas épocas ao serviço do Freixieiro.
Iniciado no Miramar, encetou cedo pela primeira divisão ao serviço do Fundação Jorge Antunes. Seguiram-se Famalicence, Boavista, Alpendorada até chegar ao clube de Matosinhos. O crescente desempenho e a garra com que disputa cada jornada valeram-lhe a chamada à selecção no ano de 2008. A convocatória levou-o ao Mundial, no Brasil, onde o jogador pode mostrar um pouco daquilo que sabe fazer. 2009 começou com a chamada para o apuramento do Europeu, a decorrer no próximo ano na Hungria, e a presença está confirmada.
Aos 23 anos, Cardinal conta já com o título de melhor marcador da época transacta e arrecada o 20º lugar no ranking europeu de melhores marcadores. Um feito que deixa um orgulho luso visível, especialmente por parte dos adeptos do Freixieiro.
Os sonhos, os objectivos, o passado, o presente e um pouco do futuro é o que o camisola 9 nos tem para revelar.

Anabela (A) – Conta-nos como é que decidiste enveredar pelo futsal?
Fernando Cardinal (C) –
Onde moro há um ringue de futebol de 5, de futsal, e é daí que veio a paixão pelo futsal. Comecei a jogar lá com os meus amigos e segui futsal.

A – Estreaste-te pela Fundação em 2004/2005, mas já praticavas antes a modalidade?
C –
A primeira época, na primeira divisão, foi, realmente, na Fundação Jorge Antunes. Antes joguei as camadas jovens todas no Miramar. Depois o Miramar desceu à segunda divisão, eu era ainda júnior, mas já jogava pelos seniores. Entretanto, houve a proposta da Fundação e agarrei-a. Fui para a Fundação e essa foi a minha primeira época. Não tão boa como eu esperava, mas serviu para arrecadar um pouco mais de experiência. Lá consegui aprender muita coisa.

A – Depois passaste pelo Famalicense, pelo Alpendorada até que chegaste ao Freixieiro em 2007.
C –
Sim, foi uma época no Alpendorada. Meia época no Boavista, só depois é que fui para o Alpendorada em Dezembro. No final da temporada vim para o Freixieiro e este é o segundo ano que aqui estou.

A – Qual o balanço que fazes de todos estes anos?
C –
Um balanço muito bom. Vivo uma experiência muito boa e tenho aprendido muito. Tenho a felicidade de treinar com os melhores jogadores, já tive os melhores treinadores e isso é bom, porque gosto de aprender e aprendo cada vez mais.

A – E no Freixieiro que é ainda o clube pelo qual jogas?
C –
Eu tinha o sonho de jogar no Freixieiro. Lembro-me, quando era miúdo, que vinha ver os jogos aqui ao Freixieiro e sempre sonhei vir a representar este clube. Pensava: “gostava de jogar aqui, quem me dera jogar aqui neste pavilhão”. O pavilhão estava sempre cheio, estava sempre tudo a gritar, a bater palmas pelos jogadores, e isso arrepiava-me. Então, surgiu a oportunidade e eu agarrei-a. Estou muito feliz aqui no Freixieiro, um clube que gosto muito e que está no meu coração. A – Consegues destacar uma época ao serviço do futsal?
C –
Acho que a do ano passado. Foi muito boa. Perdemos com o Belenenses nas meias-finais. Foi a minha primeira época no Freixieiro e fiz uma época muito boa. Não obstante, fui o melhor marcador do campeonato. Penso que essa foi a melhor época, porque esta ainda não acabou. Nesta considero que estou ao nível da outra, mas ainda faltam três jogos e os play-offs e, daqui para a frente, espero que seja igual à do ano passado. E, para o Freixieiro, que seja melhor ainda.

A – E há um jogo que seja marcante nessa época ou numa outra?
C –
O jogo contra o Belenenses. Nos play-offs, tínhamos perdido aqui em penalties, o primeiro jogo. Fomos lá para o segundo jogo e ganhámos por 4-2, dois dos golos marcados por mim. Só foi pena perdermos o terceiro jogo e acabarmos por ser eliminados nas meias-finais, mas penso que perdemos a eliminatória aqui no Freixieiro por ser em nossa casa e em penalties que é uma questão de sorte. A equipa não merecia; contudo, o Belenenses, com a equipa que tem, acho que mereceu. A – Falamos em grandes momentos, o pior terá sido, porventura, na última jornada frente ao Sporting, um jogo em que ficaste inconsciente. Não sei o que passou pela cabeça nesse momento…
C –
Não passou. Eu perdi os sentidos. Desmaiei, foram duas seguidas e eu não estava mesmo em condições para jogar. Joguei porque não aguento estar de fora e ver ali os meus companheiros. Eu queria ajudá-los de qualquer forma e fiz um esforço. Disse a todos que estava bem, apesar de sentir que não estava a 100%. Quem me conhece bem, como muita gente me disse, via em mim que eu não estava a reposto por completo. No entanto, eu queria era jogar porque adoro jogar. Podia-me prejudicar, mas graças a Deus sai bem. Não ganhámos, mas um empate é melhor do que uma derrota e o Sporting é uma grande equipa. Foi pena nos minutos finais termo-nos deixado empatar, mas pronto foi um excelente espectáculo de futsal… tirando aqueles dois momentos. A – Não te passando nada pela cabeça era algo que nunca imaginavas que poderia acontecer contigo?
C –
Sim. Acontece muitas vezes em jogos de futebol 11 e em futsal. Lembro-me uma vez contra o Sporting também o Benfica. O caso do Arnaldo com o João Benedito foi idêntico ao meu também com o João. Naquele momento comecei a pensar nessas coisas, mas graças a Deus correu tudo bem e estou aqui já a 100%.

A – Foi também um jogo marcado pela saída do Wilson, achas que o Freixieiro vai sofrer um pouco esta ausência nos próximos jogos?
C –
Sim, todos os grandes jogadores fazem falta ao Freixieiro. O Wilson era um dos jogadores mais utilizados, era o nosso pivot de referência. Como toda a gente sabe e como toda a gente vê, o Wilson era fundamental, mas temos que realçar que tivemos quase meia época sem ele e tivemos igualmente bons resultados e fizemos bons jogos. A equipa tem que se preparar que o Wilson já foi passado do Freixieiro e agora temos de nos concentrar ao máximo. Vem aí a fase decisiva. Faltam três jogos para os play-offs e penso que a equipa vai dar uma boa resposta sem o Wilson. Ele faz muita falta e, por isso, se ele cá estivesse era melhor, mas como não está eu acredito também nos meus companheiros.

A garra de Cardinal não se vê em todos os jogadores, muito menos quando apenas se tem 23 anos. Uma força de vontade comandada pela paixão que o futsal impulsiona e, como tal, inexplicável. A razão não conta quando falamos na emoção do espectáculo e nos sentimentos que movem o jogador: “Eu sou um bocado diferente quando entro dentro do campo. Só penso em ganhar, só penso em ajudar o meu clube. Lá fora sou completamente diferente. Sou amigo do amigo, sou super divertido. Só que chego aqui e transformo-me, não sei porquê…”, assevera Cardinal. Porventura o facto de não gostar de perder pode ser uma elucidação mais viável, mas nem por isso a que traduz uma verdadeira justificação “não consigo explicar muito bem. Só quero ganhar e faço de tudo para ganhar e para ajudar o Freixieiro a ganhar”.
O pivot que hoje se torna uma referência para os mais pequenos também revela o seu ídolo de sempre: João Leite. “Ele jogava no Miramar. Eu jogava nas camadas jovens, ele jogava nos seniores do Miramar. Eu ia sempre ver os jogos e ficava maluco ao vê-lo jogar. Na altura, também jogavam lá o Ivan, o Miguel Mota e esses todos eram os meus ídolos e graças a Deus, hoje, jogo com eles, mas o meu ídolo foi o João Leite. É o meu ídolo de sempre do futsal português. Junto a ele o Ricardinho, que apareceu há pouco e é da minha idade, pois é um jogador fenomenal que também admiro muito”, revela o número 9.
Ser agora um ídolo, uma referência para os mais novos é algo que Cardinal tem consciência e vê como algo “muito bom”. Para o internacional, “é um orgulho muito grande e eu já noto isso. Onde eu moro os miúdos vêm todos ter comigo e dizem «ei!marcaste um golo…dá-me um autógrafo…dá-me a tua camisola, e tu és isto, tu és aquilo». E isso é um orgulho muito grande”. Um orgulho que acaba por se traduzir num privilégio por fazer aquilo que gosta, mas, acima de tudo, porque Cardinal está no momento alto da carreira e o mesmo o assume: “Eu sinto-me um pouco privilegiado por isso, nunca pensei chegar a este momento certo. Acho que estou no momento certo da minha carreira. Com 23 anos nunca pensei que ia chegar tão rápido aonde estou e ainda bem que aconteceu”. No entanto, o trabalho continua e é isso que quer continuar a fazer: “Espero manter ou melhorar ainda mais. Toda a gente quer melhorar e eu não fujo à regra”. A – Neste momento ainda guardas a marca de melhor marcador da época passada e, se calhar, esta época lá irás renová-la. Com tantos golos ainda te consegues lembrar do primeiro golo que marcaste?
C –
Enquanto sénior foi na Fundação Jorge Antunes. Estávamos a jogar contra a UTAD e estávamos a perder por 2-0. Eu era um miúdo, tinha 17/18 anos, entro na partida e faço o 2-1, faço o 2-2 e dou os outros dois passes para o 2-3 e o 2-4. Ganhámos o jogo. Senti-me um pouco com moral: entrei naquela altura, marquei dois golos e dei outros dois. Foram esses dos primeiros dois golos.

A – O facto de seres detentor dessa marca de melhor marcador acarreta uma maior responsabilidade?
C –
As pessoas é que pensam na responsabilidade, eu não. O golo acontece naturalmente. Fui o melhor marcador do ano passado aqui no Freixieiro, mas lembro-me que, no Alpendorada e no Boavista, a meia época que fiz em cada lado, fui o segundo melhor marcador atrás do Ricardinho. Fomos aos play-offs, mas perdemos logo na primeira eliminatória com a Fundação. O Ricardinho conseguiu passar-me, uma vez que, nessa altura, o melhor marcador era contabilizado até acabarem os play-offs. O Ricardinho como prosseguiu nos play-offs arrecadou a marca e eu fiquei em segundo. Portanto, acho que já é uma característica minha: marcar golos em qualquer equipa. Já no Famalicense marquei golos, na Fundação nem tanto porque fui para lá aprender. Estou mais maduro e mais experiente e melhor jogador, mas é sempre bom marcar golos e toda a gente gosta. É o objectivo do futsal: os golos. A – Estás também entre os melhores da Europa, aí já podemos falar numa responsabilidade acrescida?
C –
Sim (risos). É muito bom fazer parte dos melhores e estar nos melhores da Europa e gostava de um dia ser o melhor artilheiro da Europa, mas é muito difícil há muitos bons jogadores e que sabem fazer o que eu sei de melhor que é marcar golos e ainda melhor se calhar. Mas se continuar assim está bom.

A – E o teu filho o que é que pensa de tudo isso. O que é que achas que ele sente quando te vê a jogar e quando marcas um golo?
C –
Ele sente uma alegria muito grande. Sempre que eu estou com ele, ele diz “oh pai, quando marcares um golo vens à minha beira e dás-me um beijinho” e sempre que ele vem ver os jogos, quando marco é isso que eu faço. Vou sempre ter com ele e com os meus sobrinhos. Eles adoram o Freixieiro e adoram vir ver os jogos. Gostam muito disto e gostam cada vez mais de futsal. É bom para a modalidade, é sinal que cada vez mais miúdos gostam de futsal e eu fico muito contente. A – Esperas que te siga as pisadas pelo futsal?
C –
Sim, ainda melhor que eu, se for possível. Ele ainda é pequenino, mas já o vou pôr nas escolinhas. Ele quer no futsal; porém, eu queria que ele fosse para o futebol 11. Deixa ver no que vai dar… Ele é que sabe; todavia, tem que ouvir os conselhos do pai, o que é melhor para ele. Eu preferia que ele fosse para o futebol 11.

A – Já que estamos a falar em família, até que ponto se pode tornar complicado conciliar o futsal com a vida familiar?
C –
Não se torna complicado. Sinto o apoio a 100% por parte da minha família. Toda a gente gosta de mim e toda a gente gosta do Freixieiro e apoiam-me por completo. Os meus irmãos, os meus tios vão todos ver o jogo, vão para qualquer lado do país ver os jogos e eu sinto-me muito bem. É bom termos sempre a família, nos bons e nos maus momentos, para nos ajudar.

Cardinal já se descreveu dentro e fora das quatro linhas. Resta-nos perguntar, nessa sequência, o que é que ele gosta de fazer fora das quatro linhas. “O Cardinal fora das quatro linhas está, muitas vezes, com o filho a passear e a jogar à bola com ele, porque ele também só quer jogar à bola e os meus sobrinhos também. Também gosto de passear com os amigos e, claro, guardo sempre um tempo para a namorada”, confessa o jogador.
Dentro das linhas de jogo, a prestação ao serviço do Freixieiro valeu-lhe a primeira internacionalização. Cardinal fez parte da lista de convocados de Orlando Duarte, aquando da preparação da selecção para Mundial, e rumou ao Brasil para disputar o campeonato do mundo. Apesar dos resultados terem ficado um pouco aquém das expectativas, valeu a experiência individual, não desvalorizando o espírito de equipa dos seleccionados.
A – O ano de 2008 foi o ano da tua primeira internacionalização e conseguiste ir ao Mundial no Brasil. Para além da diversão (risos), o que é que se passou por lá e qual a experiência que ficou para ti?
C –
Pois (risos). Foi uma experiência muito boa. Sinceramente, não contava de ir ao mundial. Não contava porque, não sei…, mas graças a Deus fui convocado e tentei dar o meu melhor pelo país e pela selecção. Foi uma experiência muito boa, um sonho concretizado e espero fazer ainda mais mundiais que é o meu objectivo, trabalho para isso. Mundiais e Europeus de forma a poder ajudar a nossa selecção. O Mundial, no Brasil, foi uma sensação de espectáculo única, que eu nunca tinha vivido. Não há palavras, penso que o sonho de qualquer jogador é representar a selecção num Mundial. É o momento mais alto da carreira.

A – Só o resultado é que acabou por não ser o mais ambicionado?
C –
Pois… Um bocado também por nossa culpa, porque se tivéssemos ganho à Itália ou se tivéssemos empatado tínhamos seguido em frente. Penso que, segundo as estatísticas, nunca ganhámos à Itália. O máximo que fizemos foi empatar, o que não quer dizer que tenhamos sempre de perder ou empatar. A nossa obrigação era ganhar, mas não o conseguimos. Toda a gente viu a forma como fomos eliminados. Acho que fizemos o nosso trabalho.
A – Já no que diz respeito ao apuramento para o Europeu na Hungria as coisas correram bem melhor.
C –
Sim. Começaram um bocadinho mal, mas depois demos as mãos e conseguimos uma vitória muito boa sobre a Polónia e lá estamos no Europeu.

A – E quais são as tuas expectativas que tens para o Europeu?
C –
Bem, eu acho que temos uma grande equipa, com muito bons jogadores e um bom treinador. Considero que, neste Europeu, vamos chegar onde queremos. Vamos alcançar os nossos objectivos e não vai ser como no Mundial. Vamos estar muito melhores, mais experientes. O que se passou no Mundial serviu para ganharmos mais experiência e para vermos o que é o futsal. Temos de nos concentrar para todos os jogos e jogar todos os jogos para ganhar, seja qual for o adversário. Com o maior respeito por todos, mas temos é que ganhar, temos que olhar primeiro por nós. A – Na fase de apuramento, qual foi a selecção que mais te surpreendeu e se revelou mais forte?
C –
Penso que foi o Azerbaijão, porque tem naturalizados quatro ou cinco brasileiros. Por acaso conheci um, o René, que jogava na Fundação, mas tinha outros jogadores brasileiros que não conhecia e fiquei a conhecer. São muito bons jogadores e têm o treinador brasileiro também e, portanto, foi a equipa que nos criou maiores dificuldades. Ainda assim tivemos o mérito e conseguimos. Estamos no Europeu, que era o nosso objectivo, em primeiro lugar do grupo.

A – O Thiago Paz, que joga pelo Azerbaijão, disse que se encontrarem, novamente, Portugal pela frente vão fazer de tudo para ganhar. A vossa moral é um pouco essa, não é assim?
C –
Pois. O Azerbaijão e qualquer equipa. Claro, ele tem de defender as cores dele e a selecção que representa, mas nós jogamos sempre para ganhar.

A – Agora rumas ao Sporting na próxima época.
C –
Ainda sou jogador do Freixieiro. A – Eu ia-te perguntar como iria ser mudar de cidade e de clube...
C –
Eu jogo no Freixieiro, as cidades são Matosinhos e o Porto.

A – Estás a jogar no campeonato português; no entanto, não há um outro campeonato que te fascina mais do que o português?
C –
Sim, como todos os jogadores gostava de jogar no campeonato espanhol que é o melhor campeonato do mundo. Para já, gostava de continuar, mais três ou quatro anos, em Portugal. Ainda tenho 23 anos e o meu objectivo é ficar cá até aos 26/27. Quero ganhar títulos em Portugal. Ganhei títulos ao nível individual, mas quero ser campeão, ganhar a taça de Portugal, a super-taça e espero, nestes próximos anos, ganhar algum título. Quero deixar aqui a minha marca e já a estou a deixar aos poucos…Depois gostava de rumar a Espanha, obter uma experiência nova, no melhor campeonato. A – Como é que vês o futsal nacional?
C –
Desde que comecei a jogar futsal vejo que o futsal está a crescer cada vez mais. Está a crescer mais, pois são cada vez mais os adeptos que acompanham o futsal dentro e fora do pavilhão. Acho que o futsal está na moda. Toda a gente gosta de futsal agora e isso é bom. Lembro-me de ir jogar e tinha 20 ou 30 pessoas na bancada, agora os pavilhões estão cheios. Sinto um orgulho muito grande por isso. Dá-me grande moral ver os pavilhões cheios e jogar com os pavilhões cheios, com muito barulho. Portanto, penso que o futsal está a melhorar, logo, está de parabéns.
Cardinal espera para o futuro poder arrecadar título, não só no que concerne ao desempenho individual como ao colectivo. Fica, por parte do jogador do Freixieiro, o desejo de “ganhar títulos em Portugal ao nível de clubes e ao nível da selecção – europeu e mundial – esse era o meu sonho. Isso era o topo mesmo, onde eu gostava de chegar. Sei que é difícil, mas não é impossível e vamos trabalhar para isso e quem sabe um dia”, declara. Para os mais novos fica o conselho: “Primeiro os estudos e depois optem pelo futsal. O futsal é uma paixão, é um desporto espectacular. Eu vejo e noto que cada vez mais miúdos gostam da modalidade, mas quero que eles estudem primeiro e que depois joguem futsal”.
Ontem um miúdo, hoje um craque, Cardinal dá a vida pelo futsal e luta pela conquista de cada jornada que se traduz na maior vitória da sua vida. Anabela da Silva Maganinho